Suco de Groselha
Você já provou suco de groselha? Reparou no comportamento dela quando se mistura à água? Groselha hoje em dia está até fora de moda, não vejo mais ninguém dizendo que ama suco de groselha. Mas eu, definitivamente, não sou uma dessas pessoas. Na escola, quando pequena, durante o intervalo, o suco de groselha que minha avó fazia na hora do almoço tinha participação constante. Era suco de groselha na hora do almoço, acompanhando as batatas e o frango, e suco de groselha e sanduÃche com patê de ricota à tarde no intervalo.
Conhecemo-nos num jantar que uma amiga em comum oferecera em sua casa. Seu nome era Melissa, ela era meu suco de groselha. Linda de lábios vermelhos, doces como meu suco de groselha. A meu pedido, nossa amiga fez suco de groselha para acompanhar meu prato. Os outros convidados tomavam vinho tinto suave, inclusive Melissa com aqueles lindos olhos verdes, mas eu tomava meu suco de groselha. InesquecÃvel, doce, quase enjoativo, mas que me descia pelo corpo como uma suave lembrança da minha infância, dos meus momentos de brincadeira no intervalo, de minha avó preparando-o na pia da cozinha, iluminada pela luz da janela. Eu sentada à mesa a observava no contra-luz, uma verdadeira cena cinematográfica. Mas eu não pensava assim à quela época, era apenas minha querida avó preparando minha lancheira.
Desde que pus meus olhos sobre Melissa nunca mais tirei-os dela. Só Melissa vejo em minha frente. Melissa, cabelo cor de rosa, destaca-se na multidão. Longas pernas de modelo, cheias de hematomas, Melissa desastrada e distraÃda.
Reserve um copo transparente de vidro. Encha-o com água, à vontade. Escolha a marca de groselha de sua preferência. Tome cuidado para não fazer um furo demasiado grande na boca da garrafa, caso contrário o lÃquido cairá aos montes e perderá todo seu encanto. Com tudo preparado, incline a garrafa sobre o copo. Deixe cair, levemente, algumas gotas do lÃquido vermelho sobre a água. Deixe formar um fino fio de lÃquido vermelho, uma linha vermelha caindo sobre o copo. Graciosamente vai se construindo pela água ondulações de todos os tamanhos, espirais rubras descendo levemente até o fundo do copo onde armazena-se a groselha caÃda. O mesmo efeito poderia ser obtido derramando sangue sobre a água, mas esta não é uma história sobre vampiros, é uma história sobre amor. Aprecie o cheiro doce que exala aquelas curvas tão delicadas e suaves, tão frágeis que ao menor movimento se desmancham e transformam-se em outras novas ondulações, novas espirais, novas curvas de encantamento vermelho e doce dentro da transparência da água.
Foi assim que Melissa entrou em meu coração, ele transparente como a água, revestido de vidro. Suas curvas sob os lençóis de cetim assemelhavam-se tanto às minhas curvas dentro do copo de água. Sua boca, seus lábios torneados, cheios de reentrâncias e saliências, minúsculas colinas de pele vermelha, como que iluminadas pela luz do pôr-do-sol. A maneira como se desenvolvia pela cama, como chegava até mim com seus olhos felinos, seu cabelo cor de rosa, era tudo como meu delicioso suco de groselha, da minha criança perdida que eu reencontrava agora em Melissa.
Experimente você algum dia preparar o suco de groselha conforme lhe expliquei. Sinta o cheiro, observe a fina linha de lÃquido vermelho saindo da garrafa, caindo na água como espiral e aquietando-se ao fundo do copo, calmamente, uma generosa porção de groselha vermelha. Misture as duas substâncias. Tudo se tornará vermelho, completamente vermelho e doce, assim como em minha vida tudo se tornou Melissa, Melissa dos olhos de gato e cabelo cor de rosa.
A Carta
“Desculpe-me pelas palavras rápidas que aqui escrevo. Depois de tantos anos, eu deveria ao menos procura-lo pessoalmente para esclarecer as coisas, explicar o motivo de ter ido embora daquele jeito, como se tivesse saÃdo para os cigarros na esquina e nunca mais voltado. Mas estou envergonhada, há tanto não temos qualquer tipo de contato que eu não saberia como reagir aos seus olhos novamente, nem saberia como você reagiria à minha presença, já que estou muito diferente do que costumava ser. A vida não foi muito generosa comigo. Não sei se foi castigo divino por ter sido tão vã com você, ou se é o acaso o motivo para meus fracassos, como se fôssemos folhas de árvores derrubadas pelo vento, indo pra lá e pra cá aleatoriamente, conforme a brisa nos leva. Sinto-me como uma dessas folhas. Sinto que você também o é, provavelmente. E por medo dessa leveza, desse acaso tenebroso que a vida nos impõe é que lhe omiti o maior segredo de minha vida. De nossas vidas: nós temos um filho. Seu nome é Elias. Sei sua opinião sobre a BÃblia, mas não poderia escolher outro nome senão bÃblico para ele. E por isso também peço desculpas, você nunca nem teve a chance de pensar em algum nome para um possÃvel filho. Ele já tem doze anos, é lindo, inteligente, adora brincar de skate e jogar futebol, como todo garoto da idade dele. Está começando a se interessar pelas meninas, suspeito até que já tenha uma namoradinha. O que fiz é imperdoável, eu sei, e como lhe disse, a vida já me puniu o bastante. Estou doente, tenho apenas alguns meses pela frente, e é por isso que estou a procura-lo. Espero que consiga terminar de ler esta carta, é muito importante que você atenda ao pedido que farei. Não, não é dinheiro. Graças a Deus, apesar de tudo, ainda tenho meu emprego e consigo sustentar uma casinha humilde, educação e comida para nosso Elias. Mas a doença tem me feito gastar muito com remédios, o que dificultou a situação. No entanto, estou em paz comigo mesma, essa doença veio numa hora em que eu já não sabia o que fazer de mim mesma, e agora que sei que a morte me espera com certeza e brevemente, estou serena e aceito meu destino. Nesse sentido, não há com que se preocupar. O que me tira o sono é Elias, o que será da vida dele depois que me for. Foi então que decidi entrar em contato com você. Quero que conheça o Elias, se aproxime dele, quero que ele vá morar com você. Sei que é um assunto demasiado delicado para se tratar assim por carta, mas devido sua importância, não vejo outra maneira de aborda-lo senão do modo mais direto possÃvel. Elias sempre perguntou do pai, mas eu nunca lhe contei a verdade. Entretanto, assim que terminar esta carta, explicarei tudo a Elias. Vai ser uma benção em sua vida ter Elias por perto e tenho certeza que a presença dele fará diminuir em seu coração a mágoa que provavelmente você deve guardar. Espero que me entenda, e se o conseguir, me perdoe. Aguardo sua visita, assim como Elias, que o estará esperando ansiosamente, eu sei. Servirei aquele chá de erva cidreira que você e Elias tanto gostam. Deus o abençoe. Lenora”.
Encontrei esta carta jogada na rua, amassada, manchas de lágrima e tinta azul sobre algumas letras, o que distorceram as palavras e me custou certo trabalho conseguir decifra-las. Estava dentro de um envelope cor de rosa, sem selo, o que imagino, foi entregue pessoalmente na casa do pai do Elias. Tenho em minhas mãos um pedaço precioso da vida de três pessoas, o destino de Elias, seu pai e Lenora, jogados ao chão, no meio da rua. Tanta vida em tão poucas palavras, num lugar tão inesperado.













































